Harmonize | Mente, Corpo e Cultura | Os tons infravermelhos do encontro analítico
A Harmonize é uma clínica que tem como missão integrar Mente, Corpo e Cultura. Para isso, trabalhamos com diversas especialidades que visam o bem estar dos nossos clientes. São elas: Psicologia, Neuropsicologia, Psiquiatria, Nutrição, Medicina Preventiva e Neuropedagogia. Além disso, promovemos cursos e encontros sobre vários temas.
Harmonize, Clínica, Sudoeste, Mente, Corpo, Cultura, Psicologia, Brasília, Distrito Federal, Psiquiatria, Nutrição, Referência, Neuropedagogia, Pedagogia, Clínica Médica, Medicina Preventiva
16929
page-template-default,page,page-id-16929,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-theme-ver-13.9,qode-theme-bridge,disabled_footer_top
 

Os tons infravermelhos do encontro analítico

[vc_row css_animation=”” row_type=”row” use_row_as_full_screen_section=”no” type=”grid” angled_section=”no” text_align=”left” background_image_as_pattern=”without_pattern” z_index=””][vc_column][vc_column_text]

Instituto Junguiano de Brasília

 

Os tons infravermelhos do encontro analítico

Aluna: Márcia David Ribeiro Fregapani

Brasília, 10 de agosto de 2018.

 

Resumo

Carl Gustav Jung muito contribui para que a relação entre psicoterapeuta e paciente ultrapassasse apenas processos de cura ou caminhos de sugestões para a resolução do “problema”. A compreensão da profundidade do processso de individuação, as relações de transferência e contratransferência permitiram a esta relação ser vivenciada como um verdadeiro encontro de duas almas em constante evolução. Este presente artigo tem o objetivo de descrever processos em que o encontro analítico ocorre com poucas palavras, baixas produções oníricas e de fantasias.

 

Introdução

A complexidade que envolve todo o processo de individuação necessita ser destrinchado e com vivência de alguns conceitos principais da psicologia analítica, como a projeção e a relação de transferência e contratransferência.

 

De acordo com Von- Franz (1999) o processo de individuação deve ser compreendido como um processo que ultrapassa os limites da auto-realização do Ego, permitindo uma relação mais íntima e profunda com as instâncias do Si- mesmo. “Neste caso, o ego, em vez de se realizar, ajuda o Si-mesmo a seguir na direção da realização”(VON-FRANZ, 1999, pag.11).

 

Quando adentra-se nas entranhas e caminhos do diálogo com o Si-mesmo, é possível perceber a multiplicidade de formas que cada indivíduo possui para alcançar seus objetivos e individuação. O analista representa um papel de fio condutor participante e espectador ao mesmo tempo, habilidade esta que somente pode ser desenvolvida com um trabalho de autoconhecimento, estudo e tempo.

 

É comum, dentro da psicologia analítica, descrições de processos oníricos riquíssimos em detalhes, construções simbólicas complexas, imaginação ativa, dentre outros processos criativos que podem impulsionar o processo de individuação com cores, formas e cheiros. Porém,  muitas vezes, a psicoterapia não é assim. Há pessoas com dificuldades em falar, expressar sentimentos, não conseguem se lembrar de sonhos, mas que apesar de toda dificuldade de interação e construção simbólica, tem o desejo de se manterem firmes na grande jornada de autoconhecimento.

 

Dentro desta realidade, é importante discutir o papel e sentimentos provocados no analista, pois este diversas vezes sente-se impotente se não focar na construção do vaso. Muitas vezes a expectativa de que o paciente traga sonhos e construções simbólicas mais complexas pode gerar frustração e assim, diminuir a capacidade de ver além dos olhos e ouvir para além dos ouvidos.

 

O encontro vivenciado entremeado a poucas palavras e muitos silêncios, podem ser igualmente rico e estruturante.

 

A construção do Vaso Alquímico em tons infravermelhos.

 

Segundo Barcellos (2010), todo processo de psicoterapia pode ser vivenciado como uma metáfora alquímica, sendo um instrumento básico na labuta com a alma. Essa entrada no mundo metafórico alquímico inicia-se na construção do vaso.

 

Essa figura simbólica do vaso, deve ser forte o suficiente para que possa conter a intensidade e diversidade dos processos alquímicos vivenciados durante a jornada da individuação.

 

A prática clínica demonstra que enquanto alguns já possuem um diálogo interno rico e cheio de repertório, outros ainda estão na construção feita, de tijolo em tijolo, na estrutura que irá permitir o processo. Um silêncio embaraçoso, falta de assunto, dificuldades em exprimir o que se sente, são características comuns nesse quadro e muitas vezes o analista se sente impotente e pouco criativo. A angústia toma conta e o ponto cego começa a dar rasteiras, como a necessidade de dar soluções, expectativa de ver uma cura a qualquer preço e cresce a necessidade de dar sugestões. Eis o campo infértil do analista, construído como um castelo de areia. Projeções ferrenhas ganham o centro do palco; a contratransferência incita a ansiedade e se não for possível parar para pensar com calma, a relação com o Si-mesmo já se foi há tempos.

 

A compreensão de que a construção do vaso é a tarefa primeira é a simples premissa de que se deve começar pelo simples. Guardar no bolso as necessidades narcísicas de grandes processos, com enormes ganhos a olho nu, faz se fundamental para o minucioso manejo do mundo invisível e fora dos holofotes. Retirar as expectativas pueris de “cura” pode encaminhar a luz do processo criativo para o lugar certo, mesmo que este não pareça confortável. De acordo com Jacoby (2011) todo analista junguiano deveria ter a clareza de que seu trabalho não é “curar”. A melhora, tão esperada, somente consegue vir à tona se ocorrer uma transformação da atitude do paciente com seu inconsciente. Mas, se o analista for atacado pelo arquétipo do curador esse conhecimento será prematuro. O Analista começa a exagerar ao sugerir coisas que podem ajudar – pintar, fazer imaginação ativa e etc. Projeta sua sensação de fracasso no paciente e se sente esgotado.

 

Ainda de acordo com Jacoby (2011) o analista deve ter conhecimento profundo de suas sombras e sentimentos contra-transferenciais para que possa construir um ambiente fértil para o encontro analítico.

 

A compreensão das diferentes vias de comunicação entre analista e paciente torna possível o esclarecimento de expectativas e encontro da frequência certa. Este modelo apresentado no livro “O Encontro Analítico”, de Mario Jacoby, 1984, demonstra que o processo analítico envolve tanto o paciente como o analista e que este deve estar consciente de seus impulsos de poder, “de suas necessidades de ser pai ou mãe, de forma a mantê-las sob um certo controle e não buscar satisfazê-las inconscientemente através da relação analítica”(JACOBY, 2011, Pag.42)

Esse modus operandi, infravermelho, onde não é possível pescar peixes grandes, demanda paciência, confiança no processo e manifestação do Self, para que seja possível apenas estar ali. Fitar uma relação íntima com o silêncio e principalmente estar presente para dar base a construção manual do paciente.

 

Para Hilman (2011) é importante conhecer os tipos de fogo, graus de fogo, fontes de fogo, para que possa saber que tipo de fogo está sendo operado. Neste caso, tem-se a utilização do primeiro grau de fogo. É muito lento, vagaroso, porém a limitação da ação é capaz de produzir calor.

 

Como é importante para o analista saber que esse processo em banho maria é capaz e produz calor. É uma etapa. Por isso, o diálogo com forças contratransferências são tão vitais para dar conta de estar neste mundo aparentemente invisível.

 

De acordo com Jacoby (2011) Jung compreende a análise como um processo dialético em que analista e paciente estão igualmente envolvidos como pessoas inteiras.

 

“Freud, já em 1910, foi o primeiro a reconhecer certa importância na contratransferência. Ela a viu, essencialmente, como um perigo para o analista que poderia perder sua neutralidade, que ele acreditava ser vital para fazer interpretações corretas dos conflitos inconscientes do paciente. Sentimentos de contratransferência deveriam ser evitados, tanto quanto possível, e eliminados através da análise, ou, ao menos, da autoanálise. Jung não compartilhava dessa opinião. Ele sentia que o analista não poderia evitar ser por vezes afetado, até profundamente, pelo seu paciente e que seria melhor aceitar esse fato e estar o mais consciente possível.” (JACOBY, 2011, pag.54)

 

A vivencia íntima do analista com seu próprio Self, abre caminhos para que o paciente possa percorrer este lugar, mesmo que com fogo baixo, se sentindo acolhido e em construção ativa.

 

Conclusão

São dois mundos que se fundem sem se fundirem em um verdadeiro encontro analítico. O trabalho é em via dupla, cada qual com seus materiais e texturas.

 

O mundo do infravermelho muitas vezes é visto como inóquo, vazio, infértil, mas para quem tem olhos voltados também para dentro de si, vai ser capaz de ver muito além. Vai ver para além do tempo, mas tem que estar em silêncio para poder ouvir o calor do fogo baixo, fogo brando, mas que porém aquece. Tenha a certeza de que aquece.

 

A arte está em saber esperar o grau certo do fogo. De faísca em faísca se faz fogo. Do fogo vamos ao forno. E agora o que era apenas calor consegue conter. Ter continência e conteúdo é uma sabedoria que se ganha com o tempo, autoconhecimento. E quando menos se espera, fertilizará. O vaso vai jorrar, no tempo certo, tanto para o analista como para o analisando.

 

Referências Bibliográficas

JACOBY, M. O encontro analítico, Petrópolis, Ed.Vozes, 2011.

HILLMAN, J., Psicologia alquímica, Petrópolis, Ed. Paulos, 2011.

VON-FRANZ, M., Psicoterapia, São Paulo, Ed. Paulus, 1999.

[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]