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Malévola, a viva transformação dos contos de fadas

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INSTITUTO JUNGUIANO DE BRASÍLIA – IJBSB

 

E CONTE OUTRA VEZ…

Malévola, a viva transformação dos contos de fadas

Márcia David Ribeiro Fregapani

(Brasília/Agosto/2014)

 

Resumo

De acordo com Von-Franz (1972) a história da Bela Adormecida, é muito antiga e possui poucas variações nas versões encontradas, pois sua substância fundamental modificou-se muito pouco. Isso demonstra que a base psicológica trazida pelo conto, como tema fundamental, é universal. Porém, muitos mitos sofrem algumas alterações e migrações de temas, pois os conteúdos arquetípicos podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar, pois nascem espontaneamente em nossa psique.

 

O filme da WaltDisney, Malévola, fez uma atualização de alguns conteúdos psíquicos presentes na história da Bela Adormecida, trazendo a tona migrações nas imagens de alguns conteúdos do desenvolvimento do feminino, como uma nova visão do lado terrível do materno e do amor nos contos de fada.

 

Esse artigo possui como objetivo de analisar o filme da Waltdisney, Malévola (2014), com o intuito de discutir as transformações que ocorreram no conto.

 

Para Von-Franz (1990) ”os contos de fada são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo” (p.9). Ou seja, são um forma de atingir os arquétipos de forma plena. Segundo a autora, existe um material cultural consciente menos específico do que no mitos e lendas, por isso, demonstram de forma clara as estruturas básicas da psique.

 

De acordo com Jung (1976) os arquétipos são conteúdos do inconsciente coletivo, ou seja representam essencialmente um conteúdo desse. Pode ser modificado quanto a sua conscientização e sua percepção, e variam de acordo com a consciência individual. Porém o homem moderno muito se distanciou da vivência simbólica de sua alma e se secularizou a ponto de tornar-se cego em relação a vida psíquica. Povos primitivos, em compensação, possuem  uma vivência real de seu mundo interno e dos símbolos do mundo, com a utilização de sonhos, mitos e contos em suas vidas diárias.

 

Os contos de fadas nasceram com um intuito educativo. Mulheres  mais velhas contavam às suas crianças histórias simbólicas, na Antiguidade. Já na Idade Média, eram voltados para adultos e crianças, pois eram a principal forma de entretenimento das populações agrícolas, em épocas de frio. Hoje em dia continuam apresentando uma função social e psíquica, pois os contos de fadas possuem a intenção de descrever um acontecimento psíquico, mas este fato é difícil e complexo de se discutir e representar, então é contado com várias versões, de variadas formas e repetidamente para que seja possível trazer o conteúdo à tona na consciência (VON-FRANZ, 1990).

 

De acordo com Von-Franz (1972) apesar das variantes formas da história da Bela Adormecida, alguns aspectos aparecem como aspecto geral: o fato de existir o nascimento de uma criança e fadas são convidadas para a festa de batismo, porém uma delas fica excluída desse evento. Essa mulher excluída lança uma maldição na criança que se concretizará quando ela estiver com 15 anos de idade. Porém, as boas fadas atenuam essa pena.

 

Este conto explora a temática do desaparecimento da filha divina. A criança recebe ao mesmo tempo um certo número de bênçãos e uma maldição. Isto demonstra a figura dupla e variável que a mãe ou ser que representa a fecundidade pode demonstrar. Explicitando assim, todo poder de nutrição e fecundidade, porém toda ira e capacidade de vingança, ao perder sua filha. A autora compara a Bela Adormecida com o mito de Deméter e Perséfone. Demonstrando como Deméter pode passar de um aspecto para outro, dependendo das atitudes e natureza de sua filha. (VON-FRANZ,1972).

 

De acordo com Von-Franz (2009) culturalmente os aspectos da mãe sombria foram sendo recalcados, tornando assim, a figura materna uma representação apenas divina e bondosa, baseada na devoção da Virgem Maria. Sendo que a “deusa-mãe” contemplada em mitologias mais antigas, como a grega e a egípcia, demonstravam um aspecto mais impulsivo e visceral do materno. A autora faz uma afirmação interessante, a qual baseia profundamente a motivação desse artigo:

 

“O aspecto sombra da deusa mãe antiga ainda não fez  sua reaparição em nossa civilização, o que nos coloca diante de uma interrogação, pois é evidente que com ela um elemento importante está ausente” (VON-FRANZ, 1972, p.45).

 

O filme Malévola trouxe essa reaparição a qual a autora se referiu. A história possui como personagem central a sombra da deusa mãe, pois a bruxa do filme da Bela Adormecida (1955) é protagonista dessa trama. O filme conta a história de Malévola desde sua infância e assim demonstra profundamente os porquês de sua vingança e ira. O fato do filme contar sua história e seus processos psíquicos profundos retira a dicotomia entre a figura da mãe boa e a figura da mãe terrível, trazendo assim um aspecto mais integrado com a totalidade desse arquétipo.

 

Malévola, que no nascimento de Aurora, coloca-lhe uma maldição por ter sido ferida amorosamente pelo Rei, é exatamente a mesma pessoa responsável pela quebra da maldição com um beijo de amor. Pois nessa versão, a princesa não é acordada por um beijo de amor do príncipe, mas sim por um beijo dado por Malévola.

 

Esse beijo possui um aspecto importantíssimo para a noção geral dessa reaparição da figura sombria da mãe. Durante todo desenvolvimento de Aurora, que é cuidada por três fadas boas e atrapalhadas, Malévola acompanha de longe todos os passos dados pela princesa. Vivendo assim, uma mistura de sentimentos, pois em muitos momentos sente raiva e ressentimento por Aurora, porém em outros a protege e admira a bondade da criança.

 

A maldição dada por Malévola é a seguinte: aos 15 anos, a princesa colocará o dedo em um fuso e dormirá em sono profundo. Somente poderá ser acordada com um beijo de amor verdadeiro. A bruxa somente coloca essa condição, porque na época do nascimento de Aurora, não acreditava no amor e assim tinha a convicção de que a princesa morreria nesse sono profundo.

 

O filme demonstra o processo de individuação vivido por Malévola. No início do filme, a bruxa é demonstrada como uma fada, uma das mais poderosas de seu reino. Com asas grandes e poderosas, era respeitada por todos os seres fantásticos da floresta. A pequena fada apaixona-se por um humano e durante anos vivem esse amor. Porém, em uma atitude de ganância e traição, o jovem corta as asas de Malévola para poder tornar-se rei. A fada é profundamente magoada e ferida, transformando-se em uma mulher amarga e vingativa. Sua vingança concretiza-se no batizado da filha desse Rei, Aurora, quando coloca sobre a doce criança sua maldição.

 

Para Von-Franz (1915) o processo de individuação não é um estado, mas sim um processo que sempre pode ser aprofundado. E que este processo seja, nada mais nada menos, do que conhecer realmente sua própria condição humana.

 

Ao passo que Aurora cresce, Malévola vai se apaixonando pelo jeito de ser da menina: sua bondade, pureza e beleza. E convive com a pequenina princesa na floresta encantada, sentindo-se arrependida por sua maldição. Aurora conhece um príncipe e Malévola sente-se aliviada por saber que essa poderia ser salva por um beijo de amor dado pelo príncipe. Eis que uma grande e importante questão é colocada agora: Aurora não é acordada por um beijo do príncipe, mas sim pelo beijo de amor dado por  Malévola. Amor esse que é desenvolvido em todo processo de individuação vivido pela mãe sombria, visitando assim os infernos de sua alma, sentindo as nuances do ódio, da vingança e da ira; porém também vivenciando o amor, a proteção e a admiração.

Esse beijo demonstra a construção do amor verdadeiro, aquele que  conhece seus aspectos sombrios e iluminados. Malévola enfrentou sua ira e vingança para encontrar o sentimento de amor verdadeiro.

 

Desta forma, a noção da mãe sombria e da mãe bondosa, não necessitaram ficar separadas em duas figuras, a das fadas e da bruxa, mas sim reunidas em uma só figura, mais sintética e real.

De acordo com Von-Franz (1972) os conteúdos vividos por deuses ou por personagens de contos são conteúdos arquetípicos que de alguma forma foram recalcados ou negligenciados pela cultura. Esses complexos não são de forma alguma patológicos, mas sim estruturas dinâmicas que fazem parte da vida normal.

 

“Os complexos, mesmo normais, não são portanto fenômenos sempre harmoniosos entre os humanos. Eles podem combater entre si e mesmo afastar outros impulsos instintivos. Um deus esquecido significa que certos aspectos do consciente coletivo estão colocados em primeiro plano de tal maneira que outros foram , em sua maioria, lançados no esquecimento. Foi esse o destino da deusa-mãe em nossa civilização”. (p.51)

 

É possível ver esse renascer da deusa-mãe na história de Malévola, pois todos seus aspectos sombrios e viscerais não são poupados para que se possa enxergar o amor de mãe verdadeiro. Malévola representa desta forma um complexo sendo integrado com sua sombra. Para Von-Franz (1915) no momento em que conhecemos todas as possibilidades do mal que nos contém, é possível desenvolver uma visão mais aprofundada. E que a única maneira de não se andar pelo mundo de forma tola e inocente é descer até as profundezas do próprio mal e se reconhecer.

 

De acordo com Kast (2011) o tema do amor pode parecer de diversas formas nos contos de fadas. Uma delas é a temática da libertação mútua, que ocorre após um período de individuação e que implica em renúncias e cortes com pessoas ou sentimentos da vida passada, e assim, esse amor, consegue libertar mutuamente as maldições. No beijo de amor, Aurora é liberta do sono profundo e da morte; e Malévola é liberta da descrença do amor e da felicidade.

 

Conclusão

A integração dos aspectos sombrios da deusa-mãe a figura da mulher é fundamental para que ocorra uma libertação do feminino na contemporaneidade. Pois muitas mulheres colocam-se em verdadeiras prisões mentais por não poderem socialmente reconhecer os abismos de suas almas, e assim, vivendo em situações de neuroses severas, como depressões que atrapalham muitas vezes a vivência saudável da sexualidade e construção do materno.

 

Muitos contos de fadas demonstram a vivência cultural desse complexo, em que a visão sombria da mãe e da mulher deve ser dicotomizada e excluída das vertentes da mãe bondosa, caridosa e fecunda. Não é à toa que possuímos histórias de fadas e bruxas, em lados opostos, colocando assim o bem e o mal sempre separados, dificultando dessa forma uma vivência da totalidade e processo de individuação.

 

O filme Malévola faz uma quebra nesse padrão e une a fada e a bruxa em uma mesma mulher. E é essa mulher capaz de quebrar maldições e tornar-se rainha.

 

De acordo com Von-Franz (1972) a personagem da fada má é a personificação de sentimentos feridos e acres. Ela demonstra o orgulho ferido e o rancor. Essas características podem esclarecer problemas da mulher pós moderna, pois ela está tendo dificuldades em integrar e superar suas feridas afetivas. Com consequência, são possuídas pelo rancor, mau- humor e decepções.

 

A história de Malévola (2014) traz uma libertação ao feminino, pois supera as versões dos Irmãos Grimm, Perrault e até mesmo da própria Waltdisney (1955), pois ilumina campos que estavam esquecidos e enfraquecidos na psique do feminino. Para Von-Franz (1972) o conto da Bela Adormecida é uma história coletiva e não pessoal, logo é possível perceber que nossa civilização afastou-se artificialmente da deusa-mãe.

 

Se Von-Franz estivesse viva para assistir esse “Conte outra vez…”da Bela Adormecida, se sentiria muito satisfeita em poder ver o renascimento da deusa-mãe em nossa civilização e com esse ressurgir, a libertação de um feminino que pode conectar-se com seu primitivo sem temer e buscar sua totalidade no seu processo evolutivo de individuação.

 

Referências Bibliográficas

KAST, V., O amor nos contos de fadas, Petrópolis, Ed. Vozes, 2009.

VON-FRANZ, M., A individuação nos contos de fada, São Paulo, Ed. Paulus, 1915.

VON-FRANZ, M., A interpretação dos contos de fada, São Paulo, Ed. Paulos, 1990.

VON-FRANZ, M., O feminino nos contos de fadas,Petrópolis. Ed. Vozes, 1972.

JUNG, C., Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis. Ed. Vozes, 1976.

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