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AMARmentar

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INSTITUTO JUNGUIANO DE BRASÍLIA

 

AMARmentar

Duelo entre Chronos e Kairós

Aluna: Márcia David Ribeiro Fregapani

(Fevereiro/2019)

 

Resumo

O ato de dar de mamar para o bebê, vai além de prover alimento e subsistência. Ele envolve proteção, abrigo, acalanto e vínculo. Ele fala sobre amor. Amor líquido. Porém, as mulheres por influência de um mundo extremamente racional têm se esquecido da forma natural da espécie de amamentar em prol de regras, regulamentos, horários e “certos e errados”. O tempo de Kairós tem sido esquecido e Chronos tem feito reinado. A consequência disso? Mulheres desconectadas de seu feminino natural, se sentido incapazes de ser quem são.

 

Introdução

Questões sobre o tempo

Na Mitologia Grega é possível perceber que as variáveis do tempo podem ser lidas com aspectos diferentes. Sob o ângulo de Chronos e sob o ângulo de Kairós.

 

De acordo com Wikipédia, Chronos nasceu no início dos tempos. Um ser incorpóreo de três cabeças, uma de homem, uma de touro e outra de leão. É o deus do tempo, que rege as leis do universo, como a rotação dos céus e do caminhar do tempo. É caracterizado como um deus que devora os próprios filhos, sendo entendido pelo aspecto de ser inevitável. Com o passar do tempo todos são vencidos pelo próprio tempo.

 

Já Kairós, na Mitologia Grega, é o deus do momento oportuno. É descrito como um deus que andava nú, era rápido e tinha somente um cacho na cabeça. Somente era possível agarrá-lo segurando nesse único cacho. Kairós não reflete o passado ou pressente o futuro, somente compreende o melhor momento no presente, trazendo assim a felicidade. (www.wikipedia.org).

 

Sendo explicitadas essas duas personalidades da mitologia grega, é possível traduzir duas formas distintas, mas complementares de entender a vivência do tempo. Compreender que ele é arrebatador e organizador de todo o caos, não implica em ser cego sobre as nuances mais delicadas e profundas do tempo que é atemporal, que só pode ser visto no agora.

 

Falando de maternagem, nos dias atuais, se rege um duelo entre essas duas divindades. A mãe deve ser informada, eficaz, eficiente, ouvir e aprender sobre tudo que todos dizem… enfim, ser tudo aquilo que é surdo para sua própria natureza. Sentir o ser natural que é, e que vive no meio da organização do cotidiano. Nada é excludente. Mas não é assim que tem sido vivenciado. A mulher que dança com seu aspecto primordial, que vira alimento da sua própria cria em um mundo sensível, vem sendo violentada com uma racionalidade ignorante e desconectada.

 

De acordo com Bertolasso, no curso online sintonia de mãe, as mulheres têm se esquecido como amamentar.

 

Na Revolução Industrial, a mulher saiu de casa e entrou no mundo do trabalho formal. Porém, a falta de leis trabalhistas, forçaram as mulheres a alimentar seus filhos com leites artificiais, para garantir a sobrevivência desses. A propaganda feita em volta do aleitamento artificial foi intensa. Como esse leite era mais gorduroso e indigesto, as crianças se alimentavam de 3 em 3 horas e assim era possível estar no mercado de trabalho e criar os filhos.

 

Alguns anos depois a Organização Mundial de Saúde percebeu que a mortalidade infantil tinha voltado a crescer e este dado estava intimamente ligado a diminuição do aleitamento materno, já que este é uma variável poderosa para a construção da imunidade e saúde do bebe.

 

Nos últimos anos, muitas propagandas são feitas para estimular o aleitamento materno, explicitando todos os benefícios para mãe e bebê. Contudo, algo já foi se perdendo pelo tempo. Muitas mulheres sentem-se incapazes de dar de mamar. Encontram-se desestimuladas, desempoderadas e incapazes desse ato tão natural. Frases como “não existe leite fraco” tem sido repetidos como mantras para que as mulheres relembrem do ser natural que nunca deixaram de ser. A ditadura de Chronos invadiu os lares, opinando sobre a frequência, como e quando as mães devem amar suas crias.

 

Mulheres que vivem que conseguem viver sua maternagem de forma entregue e completa, têm que pedir licença para serem mães, simplesmente por que o “bebe vai ficar mal acostumado”. Segundo Gutman (2019) “qualquer outra espécie de mamífero morreria de rir (e também morreria) se aquilo que o recém-nascido reclama para sua subsistência lhe fosse negado” pag.71.

 

Este presente artigo tem como objetivo falar sobre a vivência da amamentação, que quando é uma escolha, deve ser vivida sob um ângulo de Kairós, no momento presente e oportuno, livre de interferências e relógios, distante de regulamentos e muito próximo a mundos sutis e docemente selvagens.

 

“O leite só consegue jorrar com abundância quando se entra na lógica dos mundos sutis” (GUTMAN, 2019, pag. 80).

 

Se amamentar tem sido um duelo entre Chronos e Kairós, a análise desse tema, no presente artigo, deve ser feito com o casamento perfeito entre Laura Gutman, no seu livro, A maternidade e o encontro com a sombra, e Matchoupoulos, no seu livro Kairicidade e liberdade.

 

De acordo com Gutman (2019) absolutamente todas as mães são capazes de amamentar. Muito mais importante do que ter horários, técnicas e posições, é preciso falar de amor. A autora compara o ato de amamentar ao ato de fazer amor; é preciso conhecer seu próprio corpo, ter intimidade. Para que isso aconteça é necessário que o bebê fique perto mãe por muito, muito tempo. O bebê precisa estar amparado no corpo da mãe para sentir seu cheiro, seu ritmo e poder sugar. É preciso tempo e privacidade para conhecer seu corpo, produzir leite e gerar amor.

 

Esse tempo que compreende a intimidade e a privacidade da mãe e do bebê está ligado a ordem de Kairós, do tempo necessário para que algo aconteça, o tempo oportuno. Contudo, o excesso de informações técnicas, regras rígidas, horários têm distanciado o “amar” no ato de amamentar. É o Chronos devorando seus filhos, calando suas necessidades de acalanto e colo. Quantas mulheres têm que ouvir que não podem carregar suas crias porque elas ficarão “mal- acostumadas” ou que o leite delas deve ser fraco porque o bebê mama toda hora!

 

“Para dar de mamar as mulheres deveriam passar quase todo tempo nuas, sem largar sua cria, imersas em um tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem a necessidade de se defender de nada nem de ninguém, mas tão somente abstraídas em um espaço imaginário e invisível aos demais.” (GUTMAN, 2019, pag.69).

 

De acordo com Moutsopoulos (2013), viver em harmonia com a Kairicidade implica em compreender as instâncias do tempo natural, um tempo que muitas vezes compreende uma consciência pouco experiente, mas que consegue captar fatos subjetivivamente. Portanto, para entender o conceito de Kairós, é necessário captar um “momento-acontecimento, que se dilata em função de um contexto, uma zona extensível, que mais ou menos se antecipa ou se prolonga.” (pag.12).

 

Nesse sentido, AMARmentar com Kairós significa não se preocupar em quantas horas o bebê dorme e mama durante a noite, porque esse aprendizado de mãe-bebê não é cronológico. Ele existe dentro de um tempo que se paralisa e se expande no meio tempo. Cada um terá um tempo. E não importa se o bebê da vizinha “dorme a noite inteirinha e o meu não consegue”. Não consegue ainda, simplesmente porque não o tempo oportuno. E se ainda não chegou esse tempo é porque ainda há o que se aprender nesse sutil espaço de tempo. Com certeza, aspectos importantes para a maternagem como a entrega, paciência e resiliência nos são testados e ensinados nessa fase. Aqui não pretendo de forma alguma romantizar esse momento o descrevendo como simples e fácil. Na verdade, ele é o contrário de tudo isso. O cansaço, a insegurança, a exaustão e o medo caminham ao nosso lado passo a passo.

 

Na verdade, o excesso de romantismo acéptico do mundo Pampers nos distanciou da realidade desse momento tão natural. Se seguirmos pensando na zona potencial de aprendizagem que esse momento pode proporcionar, é possível dar significado positivo a dor nos mamilos no primeiro mês de amamentação, as fissuras, ao leite que demora de descer pelo estresse, as mastites, ao bebê que não engorda… enfim, as dificuldades são inúmeras e proporcionalmente as possibilidades de aprendizado e autoconhecimento são infinitas. Mas pouco se fala sobre isso. Muitas vezes as rodas de mães arrotam verdades mentirosas sobre o dia-a-dia.

 

Moutsopoulos (2013) explica que no tempo de Kairós muitas vezes ocorre uma ruptura, algo que orienta a sequencia normal das coisas para outro caminho, normalmente inesperado, mas que normalmente nos levam a evolução se forem levados a consciência. Dessa forma, todos os percalços caudalosos da amamentação e da maternagem são convites e banquetes para quem quer viver esse momento entendendo-o como oportunidade, como dádiva!

   

Para dar de mamar, hoje em dia, é necessário dizer não a ditadura de Chronos com conselhos e cursos e se conectar aos instintos animais, podendo entregar-se inteiramente a sua cria, sentido apenas apoio, proteção e confiança em si mesma. A insistência em que mãe se afaste do corpo do bêbe é muito grande, sendo que é necessário que se carregue e amamente a cria o tempo todo. A preocupação com horários é o maior obstáculo ao leite materno e desrespeito a nossa espécie humana. (GUTMAN, 2019).

 

A compreensão de que amamentar também é AMARmentar implica em fazer um mergulho em si mesma, conhecer seu corpo, sua sexualidade, animalidade e entrega. A troca de amor transcende horários e quantidade de ganho de peso. Muitas mulheres focam sua energia em quantitativos que a distanciam do deleite, silêncio e troca. Sem dúvida alguma, AMARmentar, ou seja, dar de mamar com muito amor, abre portas profundas da psique, muitas vezes sombrias e desconhecidas, outras curativas e férteis. O fato aqui é poder se entregar a esse momento, vivenciando uma escolha sem a interferência do ego e da cultura, que tem se afastado do estado natural da nossa espécie. Poder AMARmentar sem pedir licença, conselhos e invasões. Poder lamber sua cria, carregá-la, amamentá-la, protegê-la assim como sua psique lhe sopra nos ouvidos. É ouvir as vozes dos mundos sutis, do mundo de Kairós, que não compreende passado presente e futuro, e assim permite a comunhão de todas as fêmeas de nossa espécie que já habitaram essa terra.

 

Ter liberdade para ser. Para sentir. Para fazer. AMARmentar. Ser livre e poder AMARternar.

 

Conclusão

A intenção desse artigo não é romantizar o ato da amamentação, não é também demonizar a procura por informação, cursos e técnicas de amamentação. Na verdade, elas podem ser fortes recursos de empoderamento contra a ditadura de Chronos. O grande fato aqui é estar presente. Presente consigo, seus valores, corpo e desejos, e especialmente presente com seu bebê. Estar presente a ponto de “encarar de frente” todas as rupturas possíveis que podem acontecer nesse caminho: o bebê que não pega o peito, a dolorosa fissura no mamilo que te faz amamentar mordendo um lencinho de tanta de dor, o sentimento de tristeza e impotência, enfim, as possibilidades são grandes, mas ínfimas e gama de possibilidade de autoconhecimento, superação e compreensão do que é o amor de uma mãe. Sublime. Caminha por picos e vales durante toda a vida. Tão profundo que acho que ainda pulsa quando até mesmo o coração já parou de pulsar. Esse começo da AMARternagem é apenas uma mostra de tudo que ainda virá.

 

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Um verdadeiro mantra para todos os junguianos e um convite especial a todas as mamães que estão no início dessa jornada. Sinta sua alma em sintonia com a alma do seu filhote. Seja poderosa e sensível. Seja fêmea e mulher. Se permita ser dentro desse tempo tão natural e sutil.

 

Bibliografia

GUTMAN, L. A Maternidade e o encontro com a própria sombra, Rio de Janeiro, Ed. Best Seller, 2019.

MOUTSOPOULOS, E. Kairicidade & Liberdade, São Paulo, Ed. Ideias & Letras, 2013.

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Kair%C3%B3s> acessado em Março de 2019.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Chronos acessado em Março de 2019.

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