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A REFAZENDA DE GIL EM DIÁLOGO ÍNTIMO COM A PSICOTERAPIA

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INSTITUTO JUNGUIANO DE BRASÍLIA

 

A REFAZENDA DE GIL EM DIÁLOGO ÍNTIMO COM A PSICOTERAPIA

Aluna: Márcia David Ribeiro Fregapani

(Maio/2018)

 

Resumo

O cotidiano da psicoterapia inúmeras vezes é mal compreendido, tanto por ainda sofrer representações antigas de métodos baseados na sugestão, quanto por pertencer a um tempo que é mais complexo do que a simples cronologia dos fatos. A habilidade de ouvir e contar, ouvir e recontar, quantas vezes for necessário, é pedida para quem entende a força do tempo de Kairós.

 

A música Refazenda de Gilberto Gil, em uma melodia inteligente, nos transporta a sentir essa nuance de Kairós, trazendo à tona os sabores de dessabores da labuta diária com o tempo vivenciado em uma psicoterapia com entrega.

 

“… as neuroses são produto de uma evolução defeituosa, que demorou anos e anos para se formar, e não existe processo curto e intensivo que a corrija. O tempo é, por conseguinte, um fator insubstituível de cura.”(JUNG, 2011, PAG.35).

 

Este trecho da obra de Jung inaugura um pensamento fundamental para o verdadeiro encontro com a alma e quais expectativas nutrir sobre o processo de cura na psicoterapia. Por um lado, métodos mais antigos que buscavam uma intervenção mais cirúrgica e sugestiva, em casos de neurose e de outro, metodologias ingênuas e ansiosas que lidam com a complexidade psíquica como se esta obedecesse a um padrão de conserto de máquinas, corpos ou pensamentos.

 

O resultado encontrado por Jung (2011), na obra A prática da psicoterapia, pode gerar alívio para alguns e angústia para outros. Mas é de se esperar que a labuta com o tempo seja minimamente desconfortável em tempos tão líquidos e “fast-prontos”. Essa lida segue a não ordem dos mistérios. Contudo há também aqueles que se sentem atraídos pela beleza dos revezes do tempo. Curvas sinuosas que nos intrigam e instigam quando utilizamos olhos que querem ver. Esses olhos viram versos, palavras e melodias que nos rodeiam constantemente. A letra da música Refazenda, de Gilberto Gil, emana os vértices do tempo. Não somente do tempo, mas o “time” da psicoterapia.

 

Abacateiro acataremos teu ato

Nós também somos do mato como o pato e o leão

Aguardaremos brincaremos no regato

Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Abacateiro teu recolhimento é justamente

O significado da palavra temporão

Enquanto o tempo não trouxer teu abacate

Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro sabes ao que estou me referindo

Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo

Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também

Abacateiro serás meu parceiro solitário

Nesse itinerário da leveza pelo ar

Abacateiro saiba que na refazenda

Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar

Refazendo tudo

Refazenda

Refazenda toda

Guariroba

 

Gilberto Gil quando questionado sobre o significado da letra, surpreendeu a todos quando afirmou que no início estava apenas brincando com palavras e rimas, depois disse: “o que me veio mesmo foi a natureza em seu contato doméstico, amansada, à serviço da fruição – daí a ideia de pomar e das estações. Refazenda é a rememoração do interior, do convívio com a natureza; reiteração do diálogo com ela e do aprendizado com seu ritmo”.

 

A vivência com a natureza. Fator que não pode ser irrefutado, o quanto esta não se submete a nossa mera vontade. A vontade terá que se curvar, não há remédio eficaz, nem mesmo os mais amargos. Natureza, local onde a psique faz morada e nela talhou suas leis. “Enquanto o tempo não trouxer seu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”. É matemático, a colheita não será feita no tempo de nossa vontade, no máximo será recebido tudo aquilo que não é o que se espera, um tomate ou um mamão. Mas nunca será um abacate, este somente é possível quando “acatarmos o ato do abacateiro”. Somente é possível colher abacate no exato tempo do próprio abacate.

 

O abacate normalmente é simbolicamente relacionado, ao feminino, ao útero. Seu formato e maneira como abriga seu caroço realmente remete ao poder do útero e do gestar. O tempo necessário para que uma gravidez resulte em uma criança é algo que nem a ciência mais avançada consegue burlar. Essa é nossa parte inexoravelmente biológica, e resulta em se curvar ao tempo necessário para que algo aconteça. Ou simplesmente não acontece.

 

Essa ciranda do gestar, dentro da relação terapêutica, realmente é feita à quatro mãos. O trecho “tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar” fala sobre o eros necessário entre analista e analisando. Uma relação de verdadeira troca, que literalmente começa a tecer um fio condutor, um vaso alquímico capaz de fazer florescer. Aqui, a simbologia da renda é interessante. Culturalmente, no Brasil, as rendas são delicadamente tecidas entre mulheres que trocam confissões e “causos” da vida, enquanto tecem. As rendeiras são símbolos de tecer rendas enquanto tecem suas vidas. É importante dar valor a história do outro, saber ouvir e ouvir mais uma vez, dar lugar e interesse ao momento do outro, enfim, se enamorar pela alma do analisando.

 

A melodia da música fala sobre o ato de fazer e refazer diversas vezes, demonstrando a circumbullatio necessária, muitas vezes, para algo possa crescer, sem ser invadido e simplesmente abortado. Fala sobre a compreensão de muitas vezes o tempo não é simplesmente cronológico, como a gestação. Mas sim, também pode ser compreendido sob uma perspectiva muito mais profunda e atemporal. O tempo pode ter matizes que residem nas entrelinhas. Para Moutchopoulus (2013) compreender a kairicidade, o ato de vivenciar o tempo de kairós, é entender que os percalços do caminho, são o próprio caminho. Uma ruptura ou algo que não está nos nossos planos, na verdade é a fala da vida, levando a própria vida a se desenvolver no tempo necessário.

 

A vivência do “tempo necessário” em muito se difere da noção do “tempo que eu gostaria”. O ritmo da vida pós-moderna faz que se sinta que sempre estamos correndo atrás do tempo ou precisando de mais tempo. O tempo se torna um ativo incalculável. Queremos controlá-lo, dominá-lo e assim, esquecemos da reverência a ele. Resultado disso, colhemos tomate, quando queremos abacate. 

 

CONCLUSÃO

Moutsopoulos (2013) analisa o tempo sob a perspectiva de Kairós e divide o tempo em categorias Káiricas como “de muito e muito pouco, de muito cedo, e de muito tarde, de ainda não e de nunca mais e as espacio-káiricas de ainda não aqui e de nunca mais em parte alguma. Recortar o tempo sob essa perspectiva permite compreender que o tempo do abacateiro, da árvore da vida, respeita as leis da natureza, traçadas pelo vento, chuva, sol, sombra, enfim, por categorias nada subjetivas e cravada na linearidade. A árvore da vida, assim como o amadurecimento da psique, pede tempo, e é impossível contar horas, dias ou anos. Ele simplesmente acontece quando está pronto. A sociedade de consumo, que necessita de respostas rápidas, tem tido dificuldades em entender a dinâmica do mundo de Kairós, o mundo da intuição, do bailar com a vida.

 

A consequência dessa cegueira do respeito ao tempo das coisas, tem imposto ao tempo de cronos excessos absurdos, rígidos e pouco inteligentes.

 

Saber esperar de forma ativa, reverenciando o tempo da produção e da colheita, confere ao tempo uma compreensão da totalidade. A música de Gilberto Gil permite a entrada nesse mundo interior que não funciona como um relógio, em todos os momentos, mas cavalga nas pequenas e grandes nuances do tempo.

 

Referências Bibliográficas

JUNG, C., A prática da psicoterapia. Petrópolis. Ed. Vozes, 2011.

MOUTSOPOULOS, E. Kairicidade e Liberdade. São Paulo. Ed. Ideias e letras, 2013.

  

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