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A construção amorosa de ser

INSTITUTO JUNGUIANO DO DISTRITO FEDERAL – IJDF

 

A construção amorosa de ser

Análise da música 93 Million Miles

Márcia David Ribeiro Fregapani

(Brasília/Agosto/2017)

 

Resumo

A letra da música 93 Million Miles, de Jason Mraz, carrega em si um caminho interessante de autoconhecimento e busca da alteridade por meio de vivências no campo materno e paterno. Este conteúdo muito se assemelha com o entendimento de Carlos Byington, em sua obra, Pedagogia Simbólica, a construção amorosa do conhecimento de ser, em que o autor diferencia o dinamismo do matriarcado, patriarcado, alteridade e totalidade com o intuito de desenvolver um conhecimento envolvente, real e sólido.

 

Este presente artigo tem como objetivo exemplificar a teoria de Byington através letra da música 93 Million Miles.

 

A pedagogia simbólica descrita por Buyington (1996) tem como objetivo construir uma relação de ensino-aprendizagem que perpasse diferentes dinamismos, criando assim uma ampla gama de possibilidades, experiências e construção sólida de conhecimento. Para o autor, é uma pedagogia com o intuito de proporcionar a formação e o desenvolvimento da personalidade, incluindo vários aspectos da vida, como o corpo, a natureza, a sociedade, emoções e as ideias. (BUYINGTON, 1996).

 

Jason Mraz não é um psicólogo junguiano, é um cantor, porém conseguiu atingir as notas mais profundas do texto da pedagogia simbólica, trazendo uma vivência sincera de busca pela alteridade, consturando experiências no campo do materno, paterno e alteridade.

 

É importante ressaltar que quando se fala de dinamismos matriarcais e patriarcais não se estabelece uma relação de gênero com mulheres e homens, pois estes podem ser vividos por ambos os sexos.

 

Há homens que expressam o dinamismo matriarcal consigo mesmos, na família e na sociedade de forma muito mais diferenciada que muitas mulheres. Nesta perspectiva, identificar o pai e o homem com o patriarcal e mãe e a mulher com a matriarcal um é erro primário. (BUYNGTON, 1996, pag. 167.

 

Feita essa distinção, é importante que seja preparado o terreno para que se possa soltar o som. Eis aqui uma grande obra musicalmente junguiana de Jason Mraz:

 

93 Million Miles

93 Million miles from the sun

People get ready, get ready

‘Cause here it comes, it’s a light

A beautiful light, over the horizon

Into our eyes

Oh, my, my how beautiful

Oh, my beautiful mother

She told me: Son, in life you’re gonna go far

If you do it right, you’ll love where you are

Just know, wherever you go

You can always come home

240 Thousand miles from the moon

We’ve come a long way to belong here

To share this view of the night

A glorious night

Over the horizon is another bright sky

Oh, my, my how beautiful

Oh, my irrefutable father

He told me, son, sometimes it may seem dark

But the absence of the light is a necessary part

Just know, you’re never alone

You can always come back home

You can always come back

Every road is a slippery slope

There is always a hand that you can hold on to

Looking deeper through the telescope

You can see that your home’s inside of you

Just know, that wherever you go

No, you’re never alone

You will always get back home

93 Million miles from the sun

People get ready, get ready

‘Cause here it comes, it’s a light

A beautiful light, over the horizon

Into our eyes

 

Tradução

93 Milhões de Milhas

93 milhões de milhas do sol

As pessoas preparam-se, preparam-se

Porque lá vem, é uma luz

Uma linda luz, além do horizonte

Dentro dos nossos olhos

Caramba, como é linda

Oh, minha bela mãe

Ela me disse: Filho, você irá longe na vida

Se fizer isso certo, amarás o lugar onde está

Apenas saiba, onde quer que vá

Você pode sempre voltar para casa

240 mil milhas da lua

Percorremos um longo caminho para pertencer a esse lugar

Para partilhar essa vista da noite

Uma noite gloriosa

Além do horizonte há outro céu brilhante

Caramba, como é lindo

Ó, meu pai irrefutável

Ele me disse, filho, às vezes, pode parecer escuro

Mas a ausência da luz é uma parte necessária

Apenas saiba, que você nunca está sozinho

Você sempre pode voltar para casa

Você pode sempre voltar

Toda a estrada é uma ladeira escorregadia

Há sempre uma mão que você pode segurar

Olhando bem fundo pelo telescópio

Você pode ver que o seu lar está dentro de você

Apenas saiba, onde quer que vá

Não, você nunca está sozinho

Você sempre voltará pra casa

93 milhões de milhas do sol

As pessoas preparam-se, preparam-se

Porque lá vem, é uma luz

Uma linda luz, além do horizonte

Dentro dos nossos olhos

 

A letra da música pode ser dividida em três partes principais. A primeira com a descrição da vivência do matriarcado, a segunda do patriarcado e a terceira e última, a experimentação do dinamismo da alteridade, todos eles descritos cuidadosamente por Buyington.

 

Na tradução da estrófe “ oh! Minha bela mãe, ela me disse: filho, você irá longe na vida, se você fizer isso certo, amarás o lugar onde está, apenas saiba, onde quer que vá, você sempre poderá voltar pra casa”. O aspecto bondoso e estruturante da personalidade característico do arquétipo materno está presente, pois sua fala de confiança constrói em seu filho um senso de capacidade transmitido pelo olhar e narrativa materna. Além de predizer seus passos futuros com bons agouros, reafirma sua eterna possibilidade de retorno ao lar.

 

De acordo com Jung (ano), os atributos do arquétipo materno são:

“a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar da transformação mágica, do renascimento, o instinto e impulso favoráveis; (JUNG, 1976, pag.88).

 

Esta fala traduz em si todo potencial das condições de crescimento, estruturando a autoimagem e autoestima, com carga afetiva de quem reconhece no filho a bondade e a particularidade para que este saia da segurança do seio materno e possa conquistar um mundo de possibilidades, mesmo este sabendo que pode retornar sempre que precisar. Para Buyington (1996), o dinamismo da matriarcado pode ser vivenciado seguindo a lógica do “faça o que eu digo, vivenciando o que faço”, ou seja, a fala materna educa por meio do jogo da imitação. Primeiramente, o impulso maternal abre alas à autoestima com falas positivas e embaladas pela imitação, desta forma o ser aprendiz verá com seus próprios olhos.

 

Ainda para o autor, os filhos se identificam com os pais amplamente, tanto em estruturas criativas quanto em estruturas defensivas, ou seja, os filhos aprendem imitativamente do de ser de seus pais, copiando as formas de que estes elaboram seus simbólos, de forma saudável ou patológica. (BUYNGTON,1996). Esta colocação demonstra a grandiosidade da influência dos pais na vida de seus filhos, trazendo em si um conceito de reponsabilidade que perpassa gerações.

 

Mas nenhuma relação deve manter-se no aconchego do dinamismo do matriarcado para sempre, sob pena de engolfamento do ego e não reconhecimento dos relacionamentos no eixo Eu- Outro. A vivência do patriarcado proporciona a ruptura necessária para o crescimento equilibrado do ego. Na estrofe da música: “óh! Meu pai irrefutável, ele me disse, filho, às vezes pode parecer escuro, mas a ausência de luz é uma parte necessária”. Assim se faz pergunta, é necessária a que? E a resposta é coerente com as funções atribuídas ao arquétipo paterno, que tráz à tona a necessidade de instituição de leis e limites, da lógica e do social. Descritos por Buyngton (1996) como sendo um dinamismo “inspirado pelo princípio do dever, da organização, da codificação e hierarquização prioritária de tarefas, da tradição, da honra, da ordem, da responsabilidade, da justiça, da cobrança e da culpa” (pag.167).

 

Desta forma a irrefutabilidade paterna faz com que indivíduo saia do jardim do Éden materno e possa aterrizar nas variáveis reais da vida, calculando possibilidades, reconhecendo riscos e percebendo seu calibre. A ausência de luz é inspirada nas entranhas da sombra, como tudo aquilo que não está na consciência, mas que tráz em si um força estruturante para o processo de individuação.

 

Esta fala do dinamismo do patriarcado faz votos com os sacrifícios necessários ao desenvolvimento do ego. Para Jung (1973), o sacrifício faz com que o indivíduo possa liberta-se de um envólucro infantil e partir rumo a independência psíquica e aquisição de um eu maduro e adulto. O sacrifício tem o poder unir energias opostas, é o colocar na balança a luz e a sombra, e assim promover uma liberação de energia colossal.

 

O experimentar das dificuldades pessoais, os limites da vida e do destino é um ritual de reverência do ego à vida, necessária para que ilusões, megalomanias e birras possam cicatrizar lentamente, dando lugar à resiliência e a capacidade de contar consigo mesmo, dando adeus à infância psíquica.

 

O dinamismo do matriarcado e patriarcado bem vivenciados em relações afetivas tem o mágico poder transportar-se, como sendo atributos do outro, para imagens internas fortemente estruturadas. A introjeção desses valores culmina no terceiro dinamismo, o da alteridade. Tão sensivelmente cantorolado assim: “Olhando bem fundo pelo telescópio, você pode ver que seu lar está dentro de você”. Tudo aquilo que foi nutrido e vivenciado do lado de fora, agora tem poder de teletransporte, um teletransporte íntimo, intrasferível e sólido. A noção de lar, segurança, pertencimento agora é parte do ser e nada ,absolutamente nada, pode destituir esse lugar.

 

O arquétipo da alteridade faz com que o sujeito possa distinguir o certo do errado, o bem e o mal e a gestão de todas as polaridades na aquisição da sabedoria do viver. Este dinamismo “é frequentemente intuitdo e mencionado como o segredo dos segredos e mistério dos mistérios” (BUYNGTON, 1996, pag.182), pois normalmente é vivenciado por pessoas que se aprofundam no mistério da vida, em que a estrutura introjetada dos processos matriarcais e patriarcais são pré- requisites fundamentais.

 

O sentimento de possuir um lar interior é a capacidade de ser vaso para si mesmo e em um segundo plano, poder tornar-se abrigo para o outro. Segundo esta lógica, o toque sutil desse lugar tem um efeito em cascata, assim como uma pequena gota tem o poder de reverberar em distantes fronteiras de um rio. A certeza descrita na música de sempre pode voltar para o seu lar, paradoxalmente permite a ousadia de voos mais longos, mais criativos e mais dialógicos com a alma.

 

Conclusão

O livro de Buyngton (1996), a Pedagogia simbólica, traz inúmeros exemplos de como poder vivenciar o processo educativo de diferentes forma, englobando diversos dinamismos e fazendo uso de diversos recursos para que o convite ao aprendizado possa ser vivido de mãos dadas com alma. A música muitas vezes consegue tocar esse lugar sagrado. A letra consegue realizer uma viagem no tempo, fotografando momentos estruturantes da personalidade de um indivíduo. A passagem da criança para o adulto, da menina para a mulher, do menino para o homem, enfim a grande passage e interlocução entre o mestre e o aprendiz.

 

Referências Bibliográficas

BUYNGTON, Carlos Amadeu B (1996). Pedagogia simbólica, a construção amorosa do conhecimento de ser. Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro.

JUNG, Carl Gustav (1961). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Editora Vozes, Petrópolis.

JUNG, Carl Gustav (1973). Símbolos da transformação. Editora Vozes, Petrópolis.